Entrevistas
Gerenciar uma escola vai além da pedagogia, diz presidente do Instituto de Co-responsabilidade pela Educação
Qui, 12 de Abril de 2012 16:19
Marcos Magalhães é o presidente do ICE - Instituto de Co-responsabilidade pela Educação de Pernambuco. Engenheiro de carreira na Philips, passou mais de 30 anos na empresa holandesa, chegando a ser presidente de operações na América Latina. Em 2011, aposentou-se do cargo para se dedicar à filantropia. Mais exatamente, à educação. Tudo começou quando um grupo de empresários resolveu reformar o então abandonado Colégio Pernambucano. Nascia ali a ideia da co-responsabilização empresarial, que deu origem ao ICE.
Magalhães enfatiza a importância de encarar uma escola como uma empresa. “A gente fala que pedagogo tem visão um pouco, digamos, estreita do que é modelo educacional. A gente quer abrir os olhos e olhar horizontalmente o processo: as coisas vão além da pedagogia”, diz.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Observatório, ele fala sobre essa concepção e explica como funciona a consultoria que o ICE presta à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, para o Educação Compromisso de São Paulo (leia mais aqui sobre o programa).
Observatório da Educação – Qual é a participação do ICE no Programa Educação Compromisso de São Paulo?
Marcos Magalhães - Há alguns anos um modelo ligado ao ensino médio de escola de sistema integral teve início em Pernambuco. Está lá há 10 anos, depois estendeu para outros estados, como Rio de Janeiro, e agora recentemente nós começamos em São Paulo.
Houve uma parceria em que nós trabalhamos, uma parceria público privada entre a secretaria e parceiros. Esses parceiros compreendem ONGs e grupos empresariais locais do estado. Os grupos aportam o recurso financeiro, e o ICE faz a consultoria. Temos uma equipe de consultores que fazem o projeto de concepção deste modelo, desenha-se um modelo segundo a demanda e a realidade do estado. Esse modelo é negociado com secretaria, a secretaria designa uma equipe para cuidar desse programa.
Aí nós iniciamos formações e capacitações, primeiro da equipe da secretaria depois das próprias escolas, das 16 que foram selecionadas como piloto. De 16 irá para 100 escolas em 2013. Vamos também implantar tempo integral no II ciclo do fundamental, estamos desenhando os modelos, e haverá [um projeto] piloto ano que vem pra expandir em 2014 - esse é o processo do ICE.
Observatório – Quem são os parceiros?
Marcos – Os parceiros são locais, a iniciativa surgiu desses parceiros. O Instituto Natura e a Parceiros da Educação são os dois principais. Foram eles que nos procuraram já conhecendo esse projeto em Pernambuco. A Parceiros e a Natura patrocinam financeiramente esse trabalho do ICE, que é transferência de tecnologias, de gestão, pedagogia, métodos para a rede. E também são parceiros no sentido de acompanhar a implantação e dar o apoio político necessário.
Observatório - O sr. pode falar os números, quanto eles patrocinam?
Marcos – Ah, isso é segredo de estado [risos]. É bastante caro. Não recebemos nada do estado, é um projeto totalmente patrocinado pela iniciativa privada. Também tanto a Natura quanto a Parceiros, além desse apoio ao ICE, dão apoios pontuais a algumas escolas. O Instituto Natura já apoia as atividades em Cajamar. [saiba mais aqui]
Observatório - Quais escolas?
Marcos - Lembro do colégio Alexandre Von Humboldt.
Observatório - E até quando vai o convênio com a Secretaria?
Marcos - Nós começamos a preparação em meados do ano passado, e teve a implantação no inicio deste ano. Nós vamos consolidar e preparar terreno para as 100, depois preparar terreno para o ensino fundamental. Isso vai até final de 2014.
Observatório – Você foi o responsável pela concepção pedagógica?
Marcos - Sou um pobre engenheiro e empresário [risos]. Na realidade, o processo começou com vontade e um grupo de empresas. Eu na época era presidente da Philips, mais o Fábio Barbosa, a Odebrecht... Um grupo de empresas interessadas em conceber novos modelos de escolas. Contratamos consultores, o Antônio Carlos da Costa e o Bruno Silveira. Entrei na parte de gestão. Desenhar um novo projeto de gestão para a escola.
Observatório – Acredita que a gestão de uma empresa e de uma escola são similares?
Marcos - É muito similar. Na realidade eu falo que você gerir escola é como gerir uma pequena empresa, e gerir uma rede escolar é gerir uma grande empresa. São os mesmos desafios, empreendimento, objetivos e metas, métricas, planos de aula, tem que ter um processo bem definido de modo que as coisas aconteçam. No Brasil não há visão a longo prazo, planejamento adequado. O que não é planejado não é bem executado e o resultado é imprevisível.
Observatório - O sr. comentou que o projeto tem parceiros empresariais. O que eles cobrem financeiramente?
Marcos - O que eles cobrem são todos os custos de consultoria do ICE, toda a equipe, tenho equipe grande em São Paulo operando na Secretaria. Tem as horas de trabalho, tem todo o material didático pedagógico produzido, reproduzido; têm viagens, hospedagens, estadias. E a própria remuneração da equipe. Além disso, [houve] todo o sistema de avaliação de Português e Matemática de todos os alunos matriculados nas escolas para saber em que pé esses alunos estavam. Esse trabalho foi pago pelos parceiros. O estado vai reformar as escolas, comprar acervos para biblioteca, laboratório de ciências, três refeições pros garotos, professores... Esse é papel do estado.
Observatório - A equipe do ICE em São Paulo é composta por quantas pessoas?
Marcos - Hoje são cinco permanentes e dois que se encaixam periodicamente.
Observatório – Quem integra a equipe, são pedagogos?
Marcos - A palavra pedagogo é proibida no ICE. Estou brincando! Tem pessoas com experiência empresarial, pessoas com experiência em direção de escola e implementação de modelo, pedagogo, pessoa especializada na área de ciência para os laboratórios, pessoas de biblioteca, tem especialistas nas diversas áreas pedagógicas e de gestão.
Observatório – Por que a palavra pedagogo é proibida?
Marcos - A gente fala que pedagogo tem visão um pouco, digamos, estreita do que é modelo educacional. A gente quer abrir os olhos e olhar horizontalmente o processo: as coisas vão além da pedagogia. Ninguém faz educação de qualidade sem professor, sem pedagogo. É mais uma brincadeira, tenho um pedagogo na equipe.



