Entrevistas

“Querem conservar os privilégios e se recusam a abrir a USP para a sociedade”

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Integrante do movimento "Por que a USP não tem cotas", explica a reivindicação dos estudantes pela adoção do sistema de cotas na universidade.

 

Por Julia Daher

 

 

Em conversa com o Observatório, Emerson Santos, estudante de história da USP, integrante da Frente de Cursinhos Comunitários e Populares de São Paulo e do movimento “Por que a USP não tem cotas?”, explica a reivindicação dos estudantes pela adoção do sistema de cotas na universidade.

 

A demanda era uma das pautas da greve realizada por estudantes, professores e funcionários durante o primeiro semestre. Segundo Santos, enquanto o número de estudantes negros nas universidades brasileiras aumentou 230% desde o início da ação de políticas de cotas, o número da mais renomada universidade do país, a USP, não chega a 10%.

 

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Observatório: Por que a USP não tem cotas?

Emerson Santos: A resposta de por que a USP ainda não tem cotas pode ser uma resposta direta e uma resposta um pouco mais longa. A resposta direta é porque a USP é racista, essa é a nossa avaliação.

 

A resposta um pouco mais longa: a USP foi processada pelo Ministério Público há 10 anos e obrigada a democratizar o acesso pelo vestibular. O que aconteceu neste meio tempo? A USP foi colocando um bônus aqui, um bônus ali, um projeto aqui, um projeto ali, todos estes projetos falharam em serem inclusivos e a USP insistiu em todos eles. O último projeto que ela adotou foi o SISU [Sistema de Seleção Unificada]. E dentro do SISU, neste último vestibular, nos 10 cursos mais importantes da universidade não entrou nenhuma pessoa negra. E este ano a universidade insiste com o projeto do SISU. Então a única resposta que a gente pode dar é dizer que a universidade é racista. A universidade vê os números, finge que não vê, aceita estes números, esta exclusão, e ainda usa uma desculpa de que estão preocupados com o mérito da universidade, que precisam pensar mais, discutir mais e preservar o mérito.

 

Neste discurso, eles ignoram todas as pesquisas que já foram feitas. Em todo país, universidades públicas têm cotas e nenhuma destas universidades baixou o rendimento, muito pelo contrário. Os alunos cotistas têm desempenho maior do que os alunos não cotistas. Enquanto nos últimos anos aumentou em 230% o número de alunos negros nas universidades, a USP não aumentou nem 10%. Então eles vão recusando todas estas pesquisas, fecham os olhos para todas estas pesquisas e continuam colocando estes projetos que “preservam o mérito” e não incluem as pessoas negras.

 

Outro ponto que é importante é que é uma manutenção de privilégio. A universidade foi feita para a elite, isto está na carta de fundação dela. E a elite da USP e os professores da USP querem manter e conservar este privilégio, porque eles se recusam, inclusive, a conversar com instituições negras: eles não chamam o Núcleo de Consciência Negra para conversar, eles não chamaram a Ocupação Preta para conversar, eles não chamam outros movimentos negros. Eles têm consciência e certeza que sendo ricos e brancos podem decidir pelo resto da população, têm certeza que podem decidir o que é bom para a Universidade de São Paulo e o que não é bom para a Universidade de São Paulo. Querem conservar os privilégios e se recusam a abrir a USP para a sociedade.

 

 

Observatório: E qual é a proposta de cotas que o movimento defende?

Emerson Santos: A proposta de cotas que a gente defende é a seguinte: que 50% das vagas da universidade sejam para pessoas pobres e para pessoas negras. É o mínimo, uma questão de reparação histórica e de democratização da universidade. Então 50% de cotas, divididos entre a população negra e a população branca pobre de São Paulo. Aí os números são adaptados depois que a proposta é aceita. Depois que a universidade decide implantar cotas, se faz um estudo pensando qual seria o melhor modelo para a cidade de São Paulo e arredores.

 

O que a gente pede é que a Lei Federal seja aceita. A gente pensa que é necessário um projeto melhor do que o projeto das federais, no entanto o que a gente exige neste exato momento é que se aceite a Lei Federal de que todas as universidades tenham cotas. Esta lei não abrange São Paulo, na verdade ela só diz respeito às universidades federais, não às estaduais, mas é um projeto a ser seguido, pensado e melhorado.

 

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