Entrevistas

Concurso para professores deve ser prioridade no próximo governo

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Nos últimos anos, o fraco desempenho dos estudantes da rede pública de ensino de São Paulo foi atribuído, entre outros argumentos, ao absenteísmo docente. Em entrevista, Maria Izabel Noronha, presidente da Apeoesp (o sindicato dos professores das escolas estaduais), falou sobre o tema e analisou as propostas dos candidatos ao governo paulista.

 

Observatório da Educação - Os professores da rede pública paulista faltam muito ao trabalho?

 

Maria Izabel Noronha - Há muito mais falta de professores, no sentido de que falta um número adequado na rede, principalmente porque esses profissionais estão deixando a profissão em virtude da falta de atratividade da carreira, do que falta do professor ao trabalho enquanto contratado da rede estadual.

 

Em relação às faltas, esta é uma questão muito maquiada, porque não se discute o adoecimento da categoria, já comprovado por pesquisas. Pesquisas da própria secretaria de educação já foram veiculadas nos jornais indicando que as principais doenças que afetam os professores são relacionadas à voz e LER, principalmente tendinite.

 

As condições de trabalho levam a um grau de adoecimento e isso já deveria ser levantado pelo próprio governo. E o que o governo tenta fazer nesses casos? Apenas medidas paliativas que acobertam um problema estrutural.

 

Observatório - E essas faltas chegam a afetar a qualidade do ensino da rede pública?

 

Não deveria, mas como a forma de contratação [de professores] é incerta, cria problemas. Se alguém tem problema de voz e é afastado por licença médica, se coloca um professor contratado precariamente por um tempo. Não será o mesmo professor que vai dar continuidade ao projeto político pedagógico discutido por todos no início do ano.

 

E há a irresponsabilidade do governo em não tratar questões que temos debatido há anos, como o número de alunos por sala de aula, o projeto arquitetônico da escola, as carteiras, o pó de giz etc. Porque o problema da voz é causado tanto pelo uso excessivo dela, por causa de uma sala muito numerosa, ou pela exposição ao pó de giz que se assenta nas cordas vocais. Muitos também passam a ter rinite e outros problemas. Podia ter um microfone, por exemplo.

 

A verdade é que os materiais pedagógicos se mantêm desde que foi inventada a escola. A sala, a lousa, o giz, o apagador e as carteiras. Não mudou uma linha no Brasil. Nós temos que avançar também nesse conjunto de questões que permite ao professor trabalhar melhor.

 

Há também outras questões, como a ausência de funcionários. Faltam inspetores e pessoas para recepção no portão da escola. Até a Rose [Neubauer, secretaria estadual de educação entre 1995 e 2002], nós sempre tivemos esses funcionários nas escolas. Foi ela quem acabou com este apoio. Eram profissionais que olhavam se tinha algo de estranho nos corredores, por exemplo, ou na entrada dos alunos. Hoje quem faz isso é o diretor, o professor.

 

Tem também a questão da violência, que tem levado professores a terem problemas emocionais e comportamentais muito sérios, como síndrome do Pânico.

 

Se [o governo] investisse na estrutura, esse profissional não seria substituído, não precisaria pagar duplamente, porque quando um profissional se afasta, tem que pagar o substituto. Olha só a irracionalidade na forma de administrar o tal “choque de gestão”. É um choque mesmo, um choque de problemas. Uma cadeia de problemas que vai se ampliando, envolvendo a secretaria de saúde, os departamentos médicos e por aí vai.

 

Observatório - Qual o principal problema das políticas públicas para a educação em São Paulo?

 

Maria Izabel - O principal problema é falta de investimento. Porque todo profissional também precisa de sua ferramenta de trabalho atualizada. Só giz não, pode ser diferente. O professor dá aula para um aluno que já mexe na internet. Se não se pensar em alterar o ambiente da sala de aula, não vai ter atratividade.

 

A primeira questão é investimento, depois infra-estrutura e a valorização dos profissionais. Se investir só em estrutura e não tiver valorização, ele vai dar aula em duas escolas, e vai continuar arrebentado do mesmo jeito.

 

É preciso que haja concursos públicos para cobrir essa demanda de profissionais de educação, principalmente porque há uma grande quantidade de professores em contrato temporário. E há muito tempo que não se faz concurso para funcionário de escola.

 

É urgente também organizar o ambiente escolar para que, coletivamente, haja uma escola positiva. Se o professor e o diretor continuarem sobrecarregados, vai acontecer isso aí, esse blecaute que está ocorrendo.

 

Observatório - Como avalia as ações do poder público?

 

Maria Izabel - A Constituição concede autonomia a estados e municípios, mas eles não cumprem suas obrigações. Aqui [em São Paulo] está dito claramente que educação não é a prioridade. Eu vejo um total descompromisso, um desrespeito com os professores. E quem desrespeita qualquer profissional que presta serviço público, não respeita a população, porque elegemos governantes esperando ter um serviço público de qualidade.

 

Observatório - Como analisa as propostas para educação dos candidatos ao governo paulista?

 

Maria Izabel - A grande questão que eu coloco é: qual é o perfil do candidato? Ele vai estar aberto a negociar, a ouvir os professores e a sociedade? Nós vamos ter um Plano Estadual de Educação, que de fato ofereça para o estado de São Paulo um sistema educacional de forma articulada, desde o infantil até o ensino médio, que é a responsabilidade da esfera estadual? Eu penso que é importante colocar essas coisas no centro da discussão.

 

Observatório - E qual o papel da greve na pressão por essas demandas?

 

Maria Izabel - Se você me perguntar teve uma vitória econômica? Não teve. A maior vitória é essa sacudida que você dá na sociedade de que não está nada bom, não. As coisas não estão funcionando direito. Não é verdade que tem dois professores por sala, ou que professores ganham sete mil reais. Isso tudo é para parcelas muito pequenas [dos professores], e nós não queremos exceções, nós queremos trabalhar é com a qualidade social para todos.

 

Parece que o professor precisa abrir mão da vida para assumir a profissão. E nós já rompemos isso, quando partimos para a busca da profissionalização. Quando caminhamos para a profissionalização, reivindicamos ferramentas de trabalho melhores, para oferecer um serviço de qualidade. Uma fábrica, se ela quiser produzir melhor, vai investir em novos equipamentos. Eu não quero trazer a realidade da fábrica para a escola, mas não é tão diferente. Não pode ser essa coisa sem nenhum planejamento.

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