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Comparar investimento brasileiro em educação com o de países da OCDE para justificar 7% do PIB é falacioso, afirma especialista

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Uma das razões apontadas pelo MEC para determinar a marca de 7% do PIB de investimento em educação (a ser atingida progressivamente até 2020) é a comparação com o investimento público na área dos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que, em média, está entre 6% e 8% do Produto Interno Bruto (PIB) de cada país.

 

Durante audiência pública realizada em março, no Senado, o ministro Fernando Haddad disse não ter conhecimento de “nenhum país na América Latina que invista em educação mais do que 6% do PIB”, e evocou a média dos países da OCDE para destacar o esforço brasileiro. Mas, segundo o professor Nelson Cardoso do Amaral, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG), “seria necessário investir muito mais do que 10% do PIB para haver condições de comparar o Brasil com os EUA e países europeus”.

 

O pesquisador explica que, para analisar o indicador percentual do PIB, é necessário utilizar duas outras informações: “o valor do PIB do país e o tamanho do alunado a ser atendido”. A Bolívia, exemplifica, “aplicou em 2008 o equivalente a 6,4% do PIB em educação e o Canadá 5,2%”. O MEC, da maneira como está analisando o investimento brasileiro, diria que a Bolívia propicia melhores condições financeiras para o setor educacional do que o Canadá.

 

No entanto, se agregarmos as variáveis “número de habitantes em idade educacional” e valor do PIB, a realidade é completamente diferente. Veja mais detalhes na tabela abaixo, de um estudo realizado por Amaral:

 

 

O Canadá aplicou US$ 7.731 por estudante em 2010 e a Bolívia, US$ 695. “É claro, o Canadá é que propicia melhores condições financeiras para o setor educacional ao aplicar 11 vezes mais recursos por pessoa em idade educacional que a Bolívia”. Amaral afirma que, para avaliar o investimento em educação proporcional ao PIB, é preciso conjugar três indicadores: total de recursos aplicados em educação como percentual do PIB; riqueza do país, expressa pelo valor de seu PIB; e a quantidade de pessoas em idade educacional.

 

Em seu estudo, o pesquisador criou um ranking de desafio educacional. “O Yemen é o país, dentre os considerados, que possui o maior desafio educacional, seguido da Índia, Paraguai, Bolívia, Indonésia, China e Brasil, na 7ª. Posição”. Mas o primeiro está “fazendo um grande esforço nesse setor, pois já aplica o equivalente a 9,6% do PIB em educação e, apesar disso, possui um valor aplicado por pessoa em idade educacional muito pequeno (US$ 493,00), devido ao pequeno valor de seu PIB, comparado com o quantitativo da população que está na idade correta para estudar”.

 

Caso o Brasil investisse 10% em educação, descreve o estudo, o investimento anual por aluno seria de “US$ 2.398,00, comparado com o valor de Botswana (US$ 2.532,00), África do Sul (US$ 2.694,00), Cuba (US$ 4.152,00), México (US$ 3.738,00), Argentina (US$ 4.152,00), Chile (US$ 4.425,00), Uruguai (US$ 4.647,00) e Rússia (US$ 6.845,00), se esses países também estivessem aplicando o equivalente a 10% de seus PIBs, em educação”.

 

População em idade educacional

 

Além disso, ele ressalta que os países com maior desafio educacional possuem uma população em idade educacional acima de 30%. No Brasil, este índice está atualmente em 45%. “Somente a partir do ano de 2030 é que o Brasil entrará na faixa dos países que possuem menos de 30% de sua população em idade educacional. Dessa forma, os próximos dois PNEs precisarão ser ousados e destinar elevados recursos financeiros ao setor da educação, sendo que a partir desse ano a própria dinâmica populacional colaborará para que os problemas educacionais brasileiros sejam diminuídos”.

 

Amaral comparou o investimento em educação entre países com população em idade educacional acima e abaixo dos 30%. A média dos que estão acima dos 30%, grupo a que o Brasil pertence, está em US$1.209,00. “O Brasil, aplicando apenas US$ 959,00 por pessoa em idade educacional, tem um enorme desafio para atingir, por exemplo, o valor médio de todos os países selecionados, que foi de US$ 4.456,00. Atingir este valor significaria multiplicar por quase cinco os valores atuais, o que implicaria aplicar o equivalente a 20% do PIB de recursos financeiros em educação. Isto é claramente inviável, considerando que o limite a ser aplicado na área educacional parece ser o equivalente a 10% do PIB”, finaliza.

 

 

Comentários  

 
+1 # PIB para educação brasileiramarcos Lorite Lopes 05-12-2011 19:30
Vejam, após uma complicada negociação, imagino que, a educação para estes parlamentares ignorantes, deva ser algo inatingível, impensável, e para piorar querem comparar com a OCDE, que a média é de 7%, é uma falácia, basta comparar o PIB de cada país, para ver realmente a fatia que é cabível para cada aluno "per capita". Incrível que estes parlamentares, em campanha falaram - mais educação.... mais saúde..., são realmente sem caráter e sem dignidade alguma para serem parlamentares, mas enfim alguém votou nestes.
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0 # plisssjojo 05-03-2012 09:04
botem da qargentina plisss
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0 # PIB mínimo para a educação 12%Aurismar Abreu da Fonseca 06-03-2012 19:54
Essa conta é simples, menor investimento em educação, menos cidadão consciente... É dessa forma que as "malas sem alça" de Brasília pensam.
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0 # BANCO DE DADOSEdson Borges 20-06-2012 14:40
Onde encontro dados para fazer um estudo do Brasil com outros países?
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0 # nao sei se a comparacao eh justacesar renno costa 15-07-2012 06:12
Utilizar o dolar como fator de indexacao per capita nao eh exatamente correto. Tem que se levar em consideracao muitos fatores como custo de vida pra se ter uma ideia mais clara. Com certeza se pode fazer muito mais coisa na Bolivia com 7.000 dolares que no Canada.
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+1 # RE: Comparar investimento brasileiro em educação com o de países da OCDE para justificar 7% do PIB é falacioso, afirma especialistaDaniel Choma 01-02-2013 10:56
E o pior é que se o Brasil investir 50% do PIB em educação não muda muito, pois o dinheiro irá pelo ralo... Enquanto acharmos que o problema da educação É SÓ dinheiro, no momento em que ele existir não saberemos o que fazer com ele (vide o Brasil nestes anos de crescimento). Já viu professores fazerem greve por menos alunos em sala de aula? Por melhores materiais didáticos? Por melhores técnicas de ensino? Por salas de aula e escolas que não se pareçam um presídio? O problema é também financeiro, mas enquanto não tivermos diretrizes claras para o quê fazer com ele, nada mudará. As universidades públicas federais - mesmo com aumento de salários dos professores e injeção forte de verba do CNPQ em pesquisa - nos últimos anos não melhoraram muito e continuam no fosso, isoladas da sociedade, tentando ensinar gramática e filosofia aos que não sabem ler nem escrever. Injetar dinheiro numa estrutura falida é como investir na troca do telhado de uma casa em ruínas cujos pilares estão podres.
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