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Grupos promovem fusões e miram ensino público para expandir negócios

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Fusões de grandes grupos do setor de sistemas de ensino realizadas neste ano prenunciam o acirramento da disputa por um novo “mercado”, do ponto de vista das empresas: as redes públicas municipais.

 

Não há dados consolidados sobre quantos alunos das redes públicas utilizam sistemas apostilados privados. Mas as empresas que atuam no setor estimam que cerca de 1 milhão de alunos de escolas municipais têm aulas com apostilas.

 

O Observatório da Educação entrou em contato com os quatro principais sistemas conveniados com prefeituras no estado de São Paulo: COC, Anglo, Positivo e Objetivo. Destes, apenas o COC e o Positivo enviaram os dados solicitados.

 

Em geral, os grupos possuem marcas específicas para a venda a parceiros públicos. Por exemplo, o NAME (Núcleo de Apoio à Municipalização do Ensino) foi criado pelo COC para fazer convênios com municípios. Hoje está presente em 114 cidades em todo o Brasil, sendo 84 localizadas em SP.

 

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De acordo com a assessoria de imprensa do NAME, o serviço inclui desde o acompanhamento do desempenho dos alunos em sala de aula, até a capacitação dos professores e envolvimento dos pais na rotina dos estudantes.

 

O COC pertence à Pearson, empresa britânica que comprou o Sistema Educacional Brasileiro (SEB) em julho deste ano, por 613,3 milhões de reais. Além do COC, fazem parte do grupo os sistemas Pueri Domus e Dom Bosco.  A Pearson controla também o jornal Financial Times.

 

Já o Grupo Positivo, que oferece o Sistema de Ensino Aprende Brasil às prefeituras, está presente em 1.900 escolas públicas em 18 estados e em mais de 160 municípios, atendendo a 285 mil alunos.

 

Fusões

 

Também em julho deste ano, a Abril Educação, que integra o Grupo Abril, controlado pela família Civita, anunciou a compra do Anglo (Sistema de Ensino e Vestibulares), e se tornou a segunda maior empresa do setor no país (atrás do Positivo). De acordo com o jornal Financial Times, o grupo Pearson também chegou a fazer uma proposta de compra ao Anglo.

 

O Anglo possui convênio com 24 municípios, atendendo 38 mil alunos da rede pública. A Abril lançou um sistema apostilado próprio, o SER, em 2007, e já é utilizada em 350 escolas da rede privada.


Em nota, a Abril Educação afirmou que o negócio permitirá à empresa “fortalecer sua presença junto às redes pública e privada de ensino”. E o objetivo, segundo o comunicado, é alcançar a liderança do mercado.

 

Chegar a um milhão

 

À Folha de S. Paulo, na reportagem “Educação básica ruim cria oportunidades de negócio”, o presidente da Pearson na América Latina, Juan Romero, disse que a meta do grupo, que atualmente atende 450 mil alunos (metade na rede pública), é chegar a um milhão de estudantes em cinco anos. "É um mercado de US$ 2 bilhões, um dos maiores do mundo", disse ao jornal.

 

Na mesma reportagem, a Folha cita o presidente da Abril Educação, Manoel Amorim: “a meta da empresa é continuar comprando e quintuplicar sua receita em cinco anos, atingindo a marca de R$ 2,5 bilhões, atual faturamento da Abril.

 

Lógica de mercado

 

De acordo com Theresa Adrião, professora da Unicamp, a expansão dos sistemas apostilados decorre da articulação de vários fatores. “Primeiro, a municipalização do ensino fundamental para os governos locais, historicamente sem recursos e com pouca autonomia política e técnica; a situação é agravada pela vigência da Lei de Responsabilidade Fiscal, a qual induz ainda mais a implantação de terceirização de serviços, dada a restrição com gasto de pessoal”, explica.

 

“Porém, o mais importante aspecto é a lógica de mercado imposta pela abertura e associação ao capital internacional de parte de alguns desses grupos empresariais. Tal condição exige o cumprimento de metas de produtividade, as quais se expressam também em números de ‘usuários’, entre outras coisas”, diz Theresa.

 

A pesquisadora critica a falta de regulação do setor pelo governo brasileiro, e o entendimento da educação como serviço que pode ser comercializável, como qualquer mercadoria. “O que agrava ainda mais a situação é que são as redes públicas de educação básica os grandes mercados a serem disputados, dada inclusive a evidente estagnação das matrículas nas instituições privadas de educação básica observada desde meados dos anos 90”. Leia a entrevista completa aqui.

 

 

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