Entrevistas

“O mundo da EJA tem um quintal entre o falado e o escrito, o ouvido e o lido”

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Leia entrevista com Allan da Rosa, integrante do grupo de capoeira Angola Irmãos Guerreiro, poeta e dramaturgo aprendiz, organizador do selo edições Toró - literatura Periférica (acesse aqui o site). É historiador e mestre em educação pela Faculdade de Educação da USP, autor da dissertação “Imaginário, Corpo e Caneta: Matriz Afro-brasileira em Educação de Jovens e Adultos”, defendida neste ano.

OE – Em texto de divulgação da sua pesquisa publicado no site da Edições Toró, você começa contando sua vida escolar e sua experiência com as letras fora do espaço escolar. Então, é assim que gostaria de começar a entrevista: conta um pouco de sua vida vivida na escola e nas letras e como essas vidas influenciaram sua pesquisa e escolha de tema.

Allan: a vida escolar foi influenciando até como referência negativa, de pouca leitura na escola. O que mais influenciou mesmo foi o trabalho com EJA, quando comecei a dar aulas no cursinho do Núcleo de Consciência Negra, onde estudei para passar no Vestibular em 1998, e passei trabalhar com EJA em 2001.

Trabalhar com matriz africana, levando materiais, elementos vivos da nossa memória afrobrasileira para a escola, veio a partir da vivência fora da escola, nas rodas, terreiros e com memórias caseiras. O trabalho com a matriz em EJA é particularmente uma praia entre o oral e o escrito. Os alunos vêm com esse arsenal oral e se deparam com o mundo da escrita, uma porta que esperam abrir com mais traquejo. O mundo da EJA tem um quintal entre o falado e o escrito, o ouvido e o lido. Às vezes, muito pouco lido. A gente se surpreende, o pessoal que está na EJA às vezes escreve muito, discorre quantidade e também qualidade.

OE – Quais seus achados no imaginário, corpo e caneta?

Allan: só fui fazer mestrado porque acredito na linha de estudos em que procurei entrar, a do imaginário, que segue a teoria do imaginário e mostra a hipótese da gente entender o imaginário fortalecido em todo corpo, a mente como parte do corpo. Imaginário como algo que está entrosado com o que a gente come, com o que a gente olha, com o que a gente sua. O imaginário é o corpo e está no corpo. É o nosso corpo que alimenta o imaginário e o imaginário que alimenta o nosso corpo. Quando nosso imaginário está na lama, seja da mídia graúda ou da escola, que continua rebatendo toneladas de preconceito em cima da gente, esse nosso imaginário vai sendo soterrado por uma areia podre.

Então, temos essas resistências que não só vivem retraídas, mas anunciam também. A matriz afrobrasileira tem no seu imaginário formas muito valorosas de pensar relações de gênero, ecológicas, com a arte, econômicas. Não se trata de idealizar e achar que a matriz afrobrasileira apresenta um mundo perfeito. Mas como ela ficou à margem e dentro, gingando entre o oficial e o marginal, ela apresenta ainda alternativas que devem ser entendidas.

Antes de cair na armadilha de achar que é um ganho estar representado na novela ou no outdoor, precisamos entender: quando a gente fala de matriz brasileira está falando de quê? Aí vamos procurar os fundamentos e ver como esses fundamentos surgem ou são omitidos, estes que não foram desenvolvidos na escola, porque meu povo não teve acesso à escola, mas foram se dando nas comunidades, lidando com um conhecimento profundo e prático, que não deixa de ser teórico, vindo de uma intelectualidade que está ativa no seu próprio chão.

Então, quais são as matrizes da cultura negra brasileira, como isso pode alimentar processos de EJA, de educação infantil ou a arquitetura de uma mídia melhor? Para responder fui estudar o imaginário, porque ele não é algo etéreo, que fica numa nuvem dentro da cabeça. O imaginário está em cada poro do corpo, em cada gesto, que se relaciona com as nossas mitologias e com rituais. O ato mais cotidiano de abrir uma porta, levar os filhos na escola, abraçar, todos os atos cotidianos, os que nos alegram e nos decepcionam, eles têm um entrosamento com o que a gente chama de linhagem do imaginário, apresentam a possibilidade de ser entendidos melhor se a gente atentar para a linhagem do imaginário.


OE – Sua pesquisa parte da reflexão sobre “como pode a matriz afro-brasileira alimentar o processo de Educação de Jovens e Adultos”. Para usar suas palavras, quais são os “cachos de dúvidas e de chamas” que brotaram dessa reflexão?


Allan: os principais foram: como trabalhar culturas que não nasceram na escola e como elas vão se relacionar com a rigidez, com a avaliação obrigatória, presença obrigatória, com a concepção de que as disciplinas são tão distantes uma das outras. As principais dúvidas foram essas: como essa matriz afrobrasileira, que não floresceu na escola, pode continuar com suas cores vivas dentro da escola, para todas as pessoas que freqüentam a escola.  

E as chamas foram essas, descobrir que pessoas têm muito forte traumas que as afastam do reconhecimento da cultura afrobrasileira, que muitas vezes está nelas, ou que também têm um apreço muito grande esperando só uma coceirinha para transbordar e inundar de beleza a sala de aula.

Quais são esses fundamentos em que a cultura negra se baseia? Ancestralidade, intelectualidade vinculada à sua comunidade, jogo, ritmo, territorialidade, luta, teatralidade, o poder da aparência - o estilo na cultura negra é muito importante, traz uma noção de sensibilidade, de corpo no pensamento. São algumas das noções que a gente não pode perder se está trabalhando a matriz afrobrasileira.

E pior do que não trabalhar cultura afrobrasileira na escola é trabalhar superficialmente, sem pesquisa, sem atentar pro conhecimento que floresce em qualquer grupo que se afirme como afrobrasileiro. Uma das grandes dúvidas: como trazer algo que tem uma disciplina, uma relação com o tempo, mas que não é necessariamente a mesma relação com o tempo que a gente tem no cronômetro escolar?


OE – Você diz ter vindo de outras paisagens para a educação. Fale um pouco disso, de como essas paisagens, as construções distintas de sentidos, se arranjaram no processo de pesquisa?

Allan: tive diferentes linhas de abastecimento do meu espírito e da minha mão: li teóricos como guia e os coloquei para pensar juntos, na tecelagem da minha proposta. Mas tão importante para essa lida é meu trabalho como integrante do movimento de literatura da periferia de São Paulo, que tem algumas marcas, uma delas é gingar entre a oralidade e a escrita.

É necessário o entendimento de como a gente estrutura o pensamento na oralidade e na escrita, e como a gente estrutura o pensamento quando usa a oralidade numa sociedade regida pela escrita. É muito importante entender as diferenças dessas estruturas de pensamento para relacionar uma com a outra. Para não achar que a oralidade na escrita é simplesmente pegar uma gíria e botar no papel.

Precisamos entender a forma de abordar o mundo, de desenvolver a consciência, através da palavra falada, e de sentir o mundo e estudar a si mesmo através da escrita, para conseguir brincar nesse quintal, se alimentar dessa árvore. E atentar para os diferentes momentos em que esses universos se namoram, pra outros em que só se resvalam e pra outros em que pouco se resvalam.

Por isso, as linhas de pensamento importantíssimas para mim nesses estudos não foram apenas as que me dediquei horas na biblioteca, prazerosas também, mas também essa vivência no mundo da literatura periférica paulistana, confeccionando livros com a intenção de serem obras de artes plásticas, escrevendo poesias, contos e peças de teatro, irmanado diariamente com o cantar da capoeira, com o versar da Cooperifa, com a leitura de livros e folhetos feita pelos meus irmãos da quebrada, com os programas de rádio-literatura e de entrevistas que a gente fez: tudo isso foi essencial em cada célula do meu mestrado. Sabendo que a gente deve estar cabreiro com a teoria que não sobe ladeira, que não sua e não desafia o dia-a-dia com a coletividade, mas que também não deve mergulhar num discurso de prática esbaforida que não pesquisa, que não se abastece de pensamentos preciosos, pra não cair na tocaia de ser ativista que reproduz muito do que esse sistema escravista e capitalista mais porco faz, em suas estruturas, justamente porque não desenvolve seu pensamento botando a teoria fera para dançar com ele.  

OE – Frente a todos esses desafios, qual é a importância de se ocupar espaços como a Universidade?


Allan:
concordo que nem todas as pessoas devem se sentir obrigadas a ir à Universidade, pra desenvolver conhecimento e matutação com dendê, pra ferver o sabor do saber, mas todas têm que ter acesso a ela, o que significa também acesso a uma idéia melhor do que é universidade. Entendo que é muito importante a gente entrar na universidade, nós negros brasileiros, indígenas, migrantes que vieram para a cidade grande, porque a gente pode, com rigor teórico e com sensibilidade e leveza, na luta, colocar todo mundo para cirandar junto com nossas matrizes.

Não adiantaria a gente entrar e continuar considerando a universidade como lugar de conhecimento que deve ser daquele jeito, frio, gelado - elas estão mais para velório e necrotério do que para fonte do saber. Acho muito importante fazer na pós-graduação realmente um jogo de troca, não só de assimilação. No meu caso foi muito importante estar ligadíssimo a uma vivência na comunidade, para trazer essa sensibilidade para dialogar com a universidade. Sem achar que é o saber da comunidade que deve reinar, ou o contrário. Nossa universidade ainda segue demais o paradigma eurocêntrico, que já está ressecado como forma de apreensão da magia da vida, da beleza da vida. Escolhendo ou isso ou aquilo, excluindo pelo chicote da oposição e não chamando pra trançar; empenhado num desenvolvimento de ciência que domina mas que não pareia, que muitas vezes não acolhe e não abre ao afeto e ao imprevisto.

É muito importante que a gente entre, mas tenha uma noção de procurar pessoas que estão estudando isso há tempos, seja na maestria das comunidades, no suor de cada dia na rua ou teóricos muito importantes como Leda Maria Martins, Muniz Sodré, Ronilda Yakemi Ribeiro, pessoas que estão estudando e são também atuantes nas comunidades negras, mas nem por isso as idealizaram ou acharam que a universidade é o pior lugar do mundo.

E que nossas dissertações e teses não tenham aquele gosto insosso de maçaneta quebrada, mas que no texto conjuguem o saber à sensibilidade, às linguagens que, livres pra criar imagens e curvas, não percam a base do rigor teórico, da pesquisa fundamentada.


OE – A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR lançou recentemente o plano nacional de implementação da Lei 10.639. Como avalia lançamento e implementação?

Allan: descobri contigo que hoje, justo no 13 de maio, estão lançando um plano nacional cabuloso para a implementação da Lei 10.639. Mas já antes aprendi que muito mais importante que o 13 de maio foi o 14 de maio, o 15 e o 16... O mesmo penso sobre o 13 de maio de 2009. Se hoje vai ser importante ou não, a gente depende de como vai ativar o 14 e o 15 de maio.

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