Ação na Mídia

Mídia ignora a II Conferência Nacional por uma Educação do Campo

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Período analisado: julho a agosto de 2004. 

 

Leia o boletim completo sobre o tema.  

 

A grande mídia ignorou quase completamente a realização da II Conferência Nacional por uma Educação no Campo, ocorrida em Luziânia em agosto deste ano. Durante o mês que antecedeu o evento, apenas uma notinha veiculada na coluna da jornalista Belisa Ribeiro, no Jornal do Brasil, 26 de julho de 2004, foi publicada para noticiar a participação de Tarso Genro, Ministro da Educação, na Conferência. Nos demais veículos impressos de grande circulação no país, a ela sequer foi citada.

No mês de agosto, quando aconteceu o evento, foram produzidas matérias apenas por três jornais – Jornal da Câmara, matéria no dia 2 e notinha no dia 9, O Povo, do Ceará, matéria no dia 7 de agosto e um artigo opinativo no dia 14 de agosto, escrito por José Cordeiro de Oliveira, professor da Universidade Federal do Ceará, O Estado de São Paulo, que citou a 2ª Conferência, no dia 22 de agosto, quando Sérgio Gobetti pautou a questão do financiamento público e das verbas destinadas ao MST.

O Jornal da Câmara foi o que abordou o tema de maneira mais ampla, no dia 2 de agosto. O texto recupera o histórico resumido da I Conferência, realizada em 1998, contextualiza a organização da II Conferência e informa a programação completa do evento. Na nota publicada em 9 de agosto, a abordagem é mais sucinta e tem como gancho a fala de Fátima Rodrigues, secretária de Política Social da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que faz um balanço Conferenciado evento, apontando para a importância da unidade dos movimentos e da política pública para a educação do campo.

Para o jornal cearense O Povo, a abordagem principal, no dia 7 de agosto, foi o documento de seis páginas e 22 itens aprovado na Conferência, com destaque para a questão do financiamento da educação do campo e as falas de Ricardo Henriques, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), e de Fátima Rodrigues, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).

Na coluna Opinião, assinada por José Cordeiro de Oliveira, também do O Povo, a opção foi por uma análise qualificada e contextualizada da primeira e da segunda Conferência e também de indicação dos tópicos fundamentais, como a mobilização e o crescimento quantitativo de atores, a diferenciação estabelecida entre as concepções campo e rural, colocando a significação de campo para além da concepção de perímetro não urbano e também a construção do projeto político pedagógico para a educação do campo.

Entre os poucos textos publicados sobre a Conferência, apesar da cobertura um pouco mais informativa por parte do Jornal da Câmara e salvo a exceção do belo artigo do professor José Cordeiro de Oliveira, no O Povo, nenhum deles aprofundou a questão da educação do campo e nem contextualizou suas principais demandas, como a precarização do ensino com a falta de escolas, de infra-estrutura nas escolas existentes, docentes sem a formação necessária e currículos que não comportam as necessidades e os interesses dos alunos.

Fundamentalismo ou respeito à diversidade?

A revista Veja publicou em sua edição de 8 de setembro uma reportagem assinada pela repórter Monica Weinberg sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, afirmando que o MST “criou sua própria versão das madraçais – os internatos religiosos muçulmanos em que crianças aprendem a recitar o Corão e dar a vida em nome do Islã”. A reportagem afirma que “nas 1.800 escolas instaladas em acampamentos e assentamentos do MST, crianças entre 7 e 14 anos de idade aprendem a defender o socialismo, a desenvolver a consciência revolucionária e a cultuar personalidades do comunismo como Karl Marx, Ho Chi Minh e Che Guevara”.

A reportagem de Veja visitou duas escolas, ambas no Rio Grande do Sul. Segundo a matéria, “tanto a escola Nova Sociedade, em Nova Santa Rita, quanto a Chico Mendes, em Hulha Negra, exibem, nas classes e no pátio, a bandeira do MST; no currículo, abordagens ausentes da cartilha do Ministério da Educação e que transmitem a ideologia sem-terra”. O texto afirma que “o MST implementou um sistema de ensino paralelo, sobre o qual o poder público não exerce quase nenhum controle. O Ministério da Educação desconhece até mesmo quantas são e onde estão exatamente as escolas públicas com a grife do movimento. E as secretarias estaduais e municipais de ensino, embora sustentem as escolas, enfrentam dificuldades até para fazer com que professores não ligados aos sem-terra sejam aceitos nas salas de aula”.

“Não vamos nos posicionar em relação à matéria, porque sabemos que por trás de uma revista e de uma abordagem existe um posicionamento implícito”, afirma Rosana Fernandes, do setor de Educação do MST. Ela fez questão de dizer que, neste sentido, a entrevista concedida ao Observatório não foi em resposta ao que foi escrito na reportagem, mas sim uma conversa sobre as ações do MST no setor de educação. “Nas escolas coordenadas pelo MST, são estudados valores que acreditamos formar o ser humano integral, porque não dá para desligar a escola do projeto de sociedade que defendemos. Os adolescentes trazem isso da comunidade, um ambiente politizado, de luta constante, com valores de solidariedade, companheirismo, valores do campo, através dos quais eles reafirmam a identidade de camponeses. Uma das principais tarefas da escola é desconstruir valores capitalistas, como o individualismo e implementar novos valores”, conta Rosana.

Ela afirma que o MST “prega a formação integral do ser humano, política, social, econômica, afetivo e religioso, diversas dimensões que demandam conhecimentos específicos e sensibilidade do educador”. Segundo Rosana, “isso não é doutrinário. É formação política e ampla em que reafirmamos a nossa identidade. Ser Sem Terra (com letra maiúscula) não é uma condição social, é uma identidade construída historicamente nesses 20 anos de existência do MST e de vivência de luta social”.

O professor Candido Alberto Gomes, titular do Mestrado em Educação da Universidade Católica de Brasília e consultor da UNESCO, escreveu a pedido do Observatório (para a seção Temperatura deste boletim), um parecer sobre particularismos, em que questiona se estes são justificáveis. No texto, ele afirma: “A questão não está no ponto de partida: sem dúvida, é preciso começar do ambiente, da cultura, da língua do aluno, com o respeito que veda hierarquizações e tentativas de preencher um suposto vazio cultural, como se costuma fazer com o campo. A partir daí o consenso se desfaz, quando se trata de para onde ir. Partir do campo ou da pobreza para manter o aluno com uma estreita visão de mundo, sem estar preparado para outras circunstâncias, é cada vez mais temerário em sociedades estruturadas em rede”, diz.

O professor Gabriel Graboswki, do Centro Universitário Cevale, de Novo Hamburgo (RS), e da Faculdade Metodista de Porto Alegre (RS), pondera: “É preciso respeitar a dimensão territorial e a diversidade do país. Estabelecer uma identidade comum que respeite as específicas. Não se pode oferecer o mesmo modelo de educação para o filho de um pequeno ou médio agricultor, um grande proprietário e um filho de um trabalhador rural sem-terra. É preciso oferecer educação básica para todos e garantir esta educação como direito. Esta plataforma seria mínima para todos, respeitando-se a história e a cultura de cada um”.

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