Fala educador, fala educadora!

O caos que querem silenciar

Atenção, abrir em uma nova janela. PDFImprimirE-mail

Por Nágila Soares, professora de História da rede estadual de ensino de São Paulo*


Depois de três anos no curso de história, em licenciatura, o desejo maior, depois de formada, era entrar em sala de aula e exercitar a palavra ENSINAR. E realmente seria difícil explicar a sensação de como é bom o conhecimento, como é possível aprender com as experiências dos alunos, ver o brilho no olhar do aluno pela curiosidade de conhecer, como também não seria diferente com o docente que se entrega do primeiro momento de preparar a aula aos resultados finais em sala. Sendo assim, depois de um mês ensinando posso afirmar: desejo continuar a dar aula.


Mas não posso deixar de me expressar. É impensável compactuar com as injustiças que encontrei no sistema educacional paulista, com a forma como um professor da rede estadual é tratado. Será que meu chefe de Estado não sabe que “o professor é o principal agente escolar? São nos ombros do professor que se encontram a estrutura responsável pela missão educativa”, como nos diz o educador Maurice Tardif. Porém, o professor é tratado pelo Estado como inimigo da educação; como um estorvo, que apenas sabe reclamar; como uma categoria profissional que para a Avenida Paulista para reclamar de aumentos impossíveis porque, segundo eles, já ganhamos o suficiente, e só queremos fazer política eleitoreira. Para apoiar os chefes de Estado paulistas estão os grandes grupos de comunicação como Estadão, Folha de S. Paulo, Globo, Uol, que apuram os fatos beneficiando apenas o governador,que nas próximas semanas oficializará sua candidatura à presidência. Será mesmo que são os professores que fazem política eleitoreira?


Caros amigos, antes que digam que a greve dos professores do estado de São Paulo é uma grande furada, ou que apenas queremos aumento, vou especificar algumas coisas que descobri desde que entrei na rede, sendo possível julgar com mais clareza quem faz “política eleitoral”. Posso dar aula somente este ano, pois em 2011 ficarei 200 dias letivos sem lecionar, mesmo passando em provas instituídas pelo Estado. Nunca imaginei a possibilidade de não conseguir trabalhar mesmo sendo habilitada e com o Estado necessitando de professores, pois segundo a legislação:

 

  A Lei Complementar nº 1.093 de 16 de julho de 2009, publicada em 17 de julho de 2009, que dispõe sobre a contratação de servidores temporários, impede que ocorra nova contratação da mesma pessoa, com o mesmo fundamento legal, antes de decorridos 200 (duzentos) dias do término do contrato.

 
Descobri que somente os docentes que entram no Estado a partir de agora têm direito a FGTS. Um professor que tem 10 anos de carreira no Estado não tem nada de fundo de garantia. Tenho 33 aulas, começo às 7h da manhã e paro às 18h20, com alguns horários intercalados livres durante o dia. Tenho sorte de uma das escolas ser próxima de casa, onde posso almoçar, pois o vale refeição é de 4 reais. Gasto 6 reais de vale transporte para ir a uma das escolas, que fica mais distante de minha casa. Em 20 dias, são 120 reais, porém recebo apenas 50 reais por difícil acesso à escola.

 

Outra coisa perturbadora é ninguém conseguir responder o quanto ganha exatamente. Segundo dados encontrados no siteYahoo, descobri que um professor de 5ª a 8ª série ganha R$ 7,80 por aula e no Ensino Médio, R$ 8,69 (diurno), o que dá no final um valor de R$ 1.060,00  por 38 horas semanais. Segundo análise de todos os jornais, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Agora, UOL, Jornal da Tarde, e tantos outros, baseados nas informações do Governo, o professor ganha de R$ 1.831 a R$ 3.120. Juro que estou investigando. Assim que achar um professor com esse salário aviso. O governo divulga, ainda, que os professores recebem bônus que varia de 0 a 6 mil reais, uma vez por ano. Ainda não achei alguém que recebesse os 6 mil reais; e a avaliação para ganhar o bônus é o SARESP, uma prova com conteúdo de português e matemática feita pelos alunos. Se eles se saírem bem no teste, ganhamos, mas um detalhe importante é que os professores que corrigem as provas são os próprios professores da escola, o que aumenta o risco de fraude. Segundo um anúncio do governo, que passa em horário nobre na televisão, as escolas possuem bibliotecas novas e salas de informática; procurei por elas nas duas escolas em que trabalho, mas não existem.


Poderia enumerar mais e mais as controvérsias que fazem qualquer trabalho em uma empresa privada ser considerado melhor que lecionar. É possível simplesmente mudar de emprego, aliás, o diploma deve servir para algo em outro lugar. Porém, o meu gosto de ensinar faz com que eu pense em lutar pelo que acredito. Enquanto a mídia fala apenas em aumento de salário de 34,5% - o que é necessário, já que há defasagem de mais de 10 anos -, a reivindicação maior é por segurança no emprego, e por condições de construir um ensino de qualidade. Toda greve é um ato político pela reivindicação; e, pessoalmente, quero trabalhar no próximo ano, como também quero não só um Estado de São Paulo melhor de se viver como um Brasil melhor.


Há 15 anos estamos na mão de uma elite do PSDB, sendo que os filhos desses homens nunca pisaram em uma escola pública. Não somos os professores que educam seus filhos, sendo assim, a preocupação é mínima com a educação. Gastam-se milhões com propagandas, obras de metrô que deveriam estar prontas há 30 anos - o que é apenas uma obrigação do Estado, construir e melhorar todos os serviços públicos -, mas no que se refere à Educação, pouco é feito.


Peço desculpas aos pais de nossos alunos, aos alunos, aos que ficam presos no trânsito com nossas manifestações, mas apenas queremos o direito de ser ouvidos e atendidos para melhorar a qualidade do ENSINO público, que não se limita aos professores lutarem, mas sim toda a sociedade paulista.

 

* este artigo faz parte de uma iniciativa da Campanha Fala Educador, Fala Educadora! que busca dar voz ao professorado, por meio da publicação de opiniões e reflexões sobre o cotidiano escolar e o ofício docente. Se você é professor(a) e deseja participar enviando um texto, escreva para Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

 

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Rose Tonin  - EJA |2010-06-10 12:18:33
Sou professora da EJA e posso garantir que é uma emoção compartilhar todos os dias com os alunos, cada dia um desafio e cada aluno é uma lição e cada plano um crescimento. Ser professor da Eja é ser perseverante e cumprir com a sua missão até o fim, sem renunciar e sem desistir. Na verdade é uma luta diária e o segredo? O segredo está em cada aluno, na sala de aula e na alegria de ensinar, Aliás não basta somente ensinar e sim também aprender com cada aluno a sua vivência o seu dia a dia. AMO A EJA e amo o que eu faço.
marlene  - onde está meus direitos |2010-03-31 14:44:45
fiquei indignada quandoo presenciei na atribuiçao uma professora especial que ja atua a 18 anos. nao poder participar por estar de licença médica;ela tinha declinado n primeira e foi cortada da artribuiçao sem ter cido comunicada. ´o fim do mundo.
Daniel Monteiro  - Verdadeiro Educador! |2010-03-29 20:38:43
Parábens pelo texto professora! Exatamente como você me indigno todo dia ao procurar pelas 'obras' do secretário da educação (Paulo Renato) na escola onde leciono na zona sul. Encontro profissionais lutando todos os dias para fazer o melhor para os alunos e não vejo o profissional 'bem remunerado', com bonificação e super motivado com as 'melhorias' da educação no Estado mais rico da federação!
Vanderlei Ribas  - Não tive coragem |2010-03-22 14:29:01
Educadora Nágila, mais do que nunca vejo o quão importante é o papel do professor na formação do Ser Humano e o quanto o Estado é falho no desempenho das suas funções. Espero que muitos outros Educadores pensem a ajam como você, só assim poderemos ter esperança de um futuro melhor para a Educação neste Pais. Me sinto "meio" frustrado, pois durante o curso de licenciatura em História, por coincidência junto com você, tive que fazer o estágio obrigatório, mas a partir da minha experiência em sala de aula, não tive coragem de deixar o meu "emprego estável", com carteira assinada, para me "aventurar" numa profissão tão pouco valorizada e respeitada. Transferí para o futuro o meu sonho de ser professor, pois ainda não me sinto preparado para "enfrentar" a realidade de uma sala de aula. Mas, não poderia deixar de compartilhar contigo e com os outros Educadores a insatisfação com o cenário ao qual foi relagado a Educação. Só posso dizer: Boa Sorte Nágila e que CLIO Te inspire sempre a continuar lutando por aquilo que acreditas ser o justo para o Ser Humano.

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